
Esse cumprimento sempre me incomodou. O cara nunca me viu, não sabe nada a meu respeito e me diz: Jesus te ama. Isso me lembra o cretino do Roberto Jakob, depois de me despedir da Missão, na presença do Dale Kietzman e do Haroldo Silva me disse: Nós te amamos. Não aguentei aquilo e retruquei: É, vocês têm um jeito estranho de amar.
Muito provavelmente foi isso que minhas vítimas pensaram quando lhes disse: Jesus te ama. Não disse muitas vezes, mas devo ter dito algumas. Sou mais aquela do Manning, colocando-se na pele do Criador e perguntando:
Você crê que eu te amo? Pelo menos dou a chance do infeliz me dizer: não ou mentir e dizer sim. Claro, sempre pode haver alguma exceção e ser você. Nunca saberemos.
Se Jesus ama, quase todo mundo ficaria com aquele ponto de interrogação na cabeça, enquanto a retrospectiva da Globo vai passando na mente com todas aquelas misérias do ano. Pior, alguns, como eu, começam a lembrar as próprias infâmias e desventuras. Ele não seria tolo de dizer ou perguntar isso a quem quer que seja. Atualmente, ele deve andar por aí de óculos escuro e boné para não ser reconhecido, tal a vergonha. Vergonha do ser que o Pai dele criou, vergonha do que fizeram com as coisas criadas e vergonha de ter realizado aquele tresloucado ato na cruz e constatar que aquilo virou objeto de mercado nas mãos de um monte de gente sem escrúpulos.
Tem aqueles caras com o boi na sombra, mas com discurso todo comunista ou holístico, como certos pastores de igrejas ricas lá no morro do Morumbí, em tendas na Zona Oeste ou aquele lá de .Saddleback Valley. Não descansarei enquanto não vê-los colocar substância em seus sermões e textos que se espalham internet a fora, devidamente replicados por seres não pensantes. Tudo bem, querem fazer debatizinhos sobre A Cabana ou ser orador na posse do Obama? Façam isso sem se omitir nas causas envolvendo os cristãos maltrapilhos, mundo afora. Adoraria ver um deles vindo me dizer: Jesus te ama, meu irmão!
É estranho porque sou um tremendo hipócrita. Se você não acredita, apareça aqui quando minha sogra ou minha mãe estiverem, sem falar quando estou reunido com gente igrejeira. Mas até para ser hipócrita tem que haver um certo limite. Sempre tem gente me dizendo que invejo esses caras, que gostaria de participar do debate e até ser o orador na posse do presidente, nem que fosse da Escola de Samba da Gaviões da Fiel. Claro que invejo. Invejaria quem, você? Respondo a eles. Não quero derrubar os figurões, nem Jesus o fez. Quero ver esses ratos de púlpitos de acrílico metendo a mão na massa e o pé na lama. Sim, porque onde tem miséria tem barro.
Sim, Jesus me ama, ama tanta que torce por mim. Diz a todo mundo que ainda tem esperança em meu sucesso nessa vida. Minha família e meus amigos ficam pasmos com isso, porque nem eles acreditam mais. E assim estão milhões nesse mundo, desacreditados pelos seus mais próximos, quando não foram abandonados. Ah! Mas Jesus ama a todos eles, não importa como se sintam. Se esse é o amor de Deus, ou se fosse, ninguém o quereria. O que nos mantém nesse barco é o sacríficio vicário, se bem que temos todos sérias desconfianças, mesmo sem admitir publicamente.
Enfim, não resta nada a não ser perguntar-lhe: Você crê que Jesus te ama?